Experiências
são insubstituíveis. Nenhum vídeo, texto ou foto pode dar a exata dimensão das
nossas sensações. Mesmo tendo a certeza disso, quero tentar reviver com
palavras a emoção de uma escalada.
Tudo começa bem antes, quando marco
o dia de subir na rocha, na verdade quando marco o dia em que irei desafiar a
mim mesmo, meus medos, minha determinação, meu desejo de superação. Sim,
escalar não é apenas um esporte para mim, é uma viagem ao meu interior, uma
maneira de encontrar minhas convicções, enfrentar minhas dúvidas, é um
questionamento sobre o que sou capaz de realizar.
Nos dias que antecedem a aventura
fico ansioso, o planejamento torna-se o alvo prioritário, busco informações
sobre a via, verifico o equipamento, procuro visualizar as etapas da ascensão,
me pergunto sobre a descida, se por trilha ou rapel, enfim, esquadrinho na
cabeça como será estar na pedra, e sair dela.
Um dia antes, deixo tudo preparado,
cadeirinha, mosquetões, sapatilha, solteira, costuras, freios, capacete, tudo
na mochila. Coloco para gelar a água e os isotônicos, separo alguns materiais
de primeiros-socorros, a câmera. E o coração já esta a mil. Durmo sonhando com
o dia seguinte e quando ele chega não perco tempo, levanto me preparo e parto
para a rocha.
Dependendo da via tenho que caminhar
por alguma trilha de acesso. Começa aí um contato delicioso com a natureza.
Quando vivemos numa cidade, mesmo naquelas privilegiadas por um entorno verde,
perdemos por completo o entendimento do que é o silêncio das matas. Longe de
ser opressor, o silêncio da floresta é libertador, porque não significa
ausência de sons, mas sim o som harmonioso do vento, do canto dos pássaros, do
arrastar de um lagarto nas folhas secas que crepitam sob o seu peso. O silêncio
da floresta é o calar repentino do barulho da urbe, do som de motores
desregulados, das ordens do nosso chefe, das urgências falaciosas do dia-a-dia.
E isso é bom. Na mata posso ouvir a mim mesmo, minha respiração, a dos meus
colegas de escalada, posso ouvir com mais clareza minhas divagações.
Chego a base. Vislumbro a via, anoto
mentalmente os grampos que consigo enxergar, realizo uma primeira leitura da
via, busco apoios, pequenas fendas, apoios mínimos que possam garantir minha
ascensão. O equipamento é descarregado da mochila e visto-me com minha armadura
de segurança. O guia dá início a escalada.
Entre o guia e o participante se
estabelece uma necessária e imprescindível relação de confiança, de um depende
a segurança do outro e vice-versa. Aqui uma primeira lição desse esporte. Para
se alcançar um objetivo mútuo devemos primeiro pensar no outro, em garantir a
integridade do seu companheiro, para que em seguida ele faça o mesmo por você.
No mundo de hoje muita gente pensa em subir pisando na cabeça dos companheiros,
dos colegas, esquecendo-se que no caso de queda, não vai existir ninguém que a
freie.
A rocha quase nunca é fria,
geralmente esta quente, como um ser vivo. E para mim ela esta viva, faz parte
desse organismo maior chamado Terra. Por isso devo respeitá-la, não devo
agredi-la. No primeiro contato das mãos com a pedra já sinto uma energia
diferente fluir, não é nada místico, não é uma experiência religiosa, é
sensorial, físico, concreto. A aspereza, a porosidade, o limo. Nos pés a
sapatilha aperta, como deve ser, meus dedos e solas chapam para conseguir
aderência, meu abdômen se retesa em busca de equilíbrio para o corpo.
ESCALANDO. Essa é a palavra que nos conduz para cima.
Passo a passo, uma mão após a outra.
A subida deve ser cautelosa. Nesse momento todo o entorno de problemas
desaparece, só consigo pensar na via, nos apoios, em retirar as costuras, em
não escorregar. O ponto de parada montado pelo guia é o objetivo primário.
Outra lição da rocha para a vida. Se quer chegar ao cume, ao último grampo, trace
metas curtas. Uma após a outra os obstáculos vão ficando para trás. Se pensar
apenas no topo, vai desprezar o caminho, vai se esquecer de ler a via e vai
cair.
A parada é um momento ímpar. De
descanso, de recuperação e de apreciação da vista. Ah, a vista! Fotos podem
retratar o que eu vi, mas não como eu vi ou como me emocionei. A cada parada,
quanto mais alto, a vista vai se tornando mais bela, mas intangível e ao mesmo
tempo mais real. É uma ambiguidade que não posso explicar, só vivenciar. É o
momento de se alegrar com seu companheiro, de trocar impressões, sorrir e
compartilhar a emoção. É também um recomeço para se chegar a próxima parada, a
próxima meta.
Finalmente o topo, o cume ou o
último grampo. O corpo exausto, o suor lavou meu corpo, os dedos das mãos
esfolados pelo carinho intenso da rocha, os dedos dos pés com bolhas, mas o
sentimento de ter alcançado o fim, de ter superado seus medos mais primordiais,
isso anula os efeitos físicos da escalada. Olhar de cima o mundo, não com o ar
de falsa superioridade dos vaidosos, mas com o orgulho dos conquistadores.
O verdadeiro conquistador não vence
a natureza. O verdadeiro conquistador sabe que ela não pode ser vencida, ela é
absoluta, não se verga a nada nem a ninguém, por isso o conquistador se reintegra
a natureza, cônscio de que é parte do todo. Dessa forma, pode apreciar de
maneira plena o cume, o último grampo, pode se sentir completo, vivo. Aí esta a
beleza da escalada.

Fantástico, exatamente o que sentimos.
ResponderExcluirParabéns!!
Paulo Guerra