Minhas
duas últimas experiências na pedra trouxeram-me algumas valiosas lições. Sim,
acreditem, a rocha ensina, e ela é uma extraordinária professora, às vezes um
tanto áspera no trato, em certos sentidos inacessível, mas sempre cumpre seu
papel propedêutico. De minha parte tenho buscado ser um aluno atento, talvez
não tão dedicado, mas bastante observador.
Nos
dois fins de semana que se passaram fiz duas vias clássicas do Rio de Janeiro,
a Reinaldo Bekhen, no Morro da Babilônia e a Coringa, no Morro da Urca. A
primeira com uma graduação de 3º IIIsup E2 D1 e
a segunda um 3º IIIsup E1. Em ambas fui como participante, tendo como
guia, meu amigo e instrutor, Paulo Guerra.
A
Reinaldo estava nos projetos do Paulo, que pensou num roteiro de vias para que
eu possa ganhar maturidade no esporte. De fácil acesso, fica atrás do bondinho do
Pão-de-Açúcar, esta é uma via extraordinariamente bela. Chegamos bem ligeiros a
ela. Era uma linda tarde de sábado. De primeira recebi uma aula sobre ascensão
em corda fixa através de um nó auto-blocante conhecido como prusik, uma técnica
que visa a segurança do escalador.
Logo
após a aula introdutória o Paulo iniciou a guiada da via. Da base eu procurava,
enquanto fazia a segurança, registrar seus passos e pegadas, para futura
referência na minha ascensão. Tendo montada a parada era a minha vez.
Vou
confessar algo a vocês leitores. Eu estava muito adrenado, eu não escalava há
quase três meses (havia apenas feito uns boldiers na praça de Itacoatiara e no
campo escola do Bananal, no mesmo bairro, aqui na minha cidade, em Niterói). Em
dado momento senti um pouco de medo, o queixo danou a tremer. Mas nesse dia eu
estava muito pilhado para subir, engoli o medo e fui. Acho que foi minha melhor
escalada. O Paulo não deixou a corda mega tensionada, justamente para me dar
uma certa liberdade, e eu não vacilei e nem escorreguei. Claro que o novato
aqui deu umas roubadinhas, não me orgulho em dizer, mas foi uma subida segura e
tranquila. Pude aproveitar o visual sentindo-me o ‘alpinista’. Saí da pedra
dono de mim, seguro, fortalecido. Subir no Babilônia é uma espécie de batismo
para o escalador fluminense, e eu havia sido iniciado.
Sábado
seguinte foi a vez da Coringa. Mas calmo, cumpri meu ritual de ver vídeos sobre
a via, investigar sua graduação, arrumar e verificar o material. Partimos a
tarde, novamente eu e o Paulo.
O
acesso a Coringa é através de uma trilha curta, de cerca de 10 minutos de caminhada.
Eu estava bem mais calmo nesse dia, a confiança adquirida na Reinaldo ainda se
fazia presente.
A
saída da via é quase uma escalaminhada, o que aumenta a sensação de que tudo
vai ser fácil. Bom, para um escalador experiente a Coringa realmente é um
passeio mas para mim foi uma aventura radical. E aí vai a lição número um da
rocha: seja confiante, não arrogante. Quem manda na pedra é a pedra, tenha
confiança na sua abordagem da via, mas nunca arrogante para desmerecer os
obstáculos que possam aparecer.
Dois
lances fizeram-me duvidar da minha capacidade para superar adversidades na
rocha. Pedi mesmo ao guia para descermos. Escorreguei muitas vezes,
arranhei-me, senti medo. Não aquele medo que impulsiona, mas um medo ruim, que
paralisa. Nesses momentos pude contar com o valioso auxílio do guia, Paulo
Guerra. Hoje, digo com muita convicção do que afirmo, um bom guia não é apenas
aquele que domina as técnicas de escalada, conhece todos os procedimentos de
segurança, tem a via na palma da mão (claro, tudo isso é importante). O bom
guia é, sobretudo, aquele que te faz superar seus limites, que esta disposto a
partilhar seu saber, que literalmente, e metaforicamente, quer te ver para cima.
O Paulo é desses. Sempre me estimulando, confiando em mim, mais do que eu
mesmo, foi me mostrando alternativas, dando força (‘mente forte’ diz ele),
chegando mesmo a desescalar um trecho para poder me ajudar.
Graças
a esse estímulo, tirei forças lá de dentro, superei novamente meus temores,
minhas dúvidas, e consegui passar os dois trechos, que para mim pareciam
impossíveis.
E
aí vai a lição número dois da rocha: escolha bem seus companheiros de jornada,
pois é necessário confiar neles; são eles que vão garantir sua segurança, e
vice-versa, são eles que vão te dar força para chegar ao topo quando você
fraquejar.
Posso
dizer que escolhi bem.
Bom
escaladores, até a próxima experiência. Aguardo vocês aqui.
Paulo Guerra

Existe lições muito importantes em nossas vidas, eu entendo que a rocha nos faz observadores na leitura do caminho, e que as conquistas serão atingidas passada a passada,agara a agarra,queda a queda...
ResponderExcluirParceiro, "mente forte"