Total de visualizações de página

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Lições da Rocha


Minhas duas últimas experiências na pedra trouxeram-me algumas valiosas lições. Sim, acreditem, a rocha ensina, e ela é uma extraordinária professora, às vezes um tanto áspera no trato, em certos sentidos inacessível, mas sempre cumpre seu papel propedêutico. De minha parte tenho buscado ser um aluno atento, talvez não tão dedicado, mas bastante observador.
Nos dois fins de semana que se passaram fiz duas vias clássicas do Rio de Janeiro, a Reinaldo Bekhen, no Morro da Babilônia e a Coringa, no Morro da Urca. A primeira com uma graduação de 3º IIIsup E2 D1 e a segunda um 3º IIIsup E1. Em ambas fui como participante, tendo como guia, meu amigo e instrutor, Paulo Guerra.
A Reinaldo estava nos projetos do Paulo, que pensou num roteiro de vias para que eu possa ganhar maturidade no esporte. De fácil acesso, fica atrás do bondinho do Pão-de-Açúcar, esta é uma via extraordinariamente bela. Chegamos bem ligeiros a ela. Era uma linda tarde de sábado. De primeira recebi uma aula sobre ascensão em corda fixa através de um nó auto-blocante conhecido como prusik, uma técnica que visa a segurança do escalador.
Logo após a aula introdutória o Paulo iniciou a guiada da via. Da base eu procurava, enquanto fazia a segurança, registrar seus passos e pegadas, para futura referência na minha ascensão. Tendo montada a parada era a minha vez.
Vou confessar algo a vocês leitores. Eu estava muito adrenado, eu não escalava há quase três meses (havia apenas feito uns boldiers na praça de Itacoatiara e no campo escola do Bananal, no mesmo bairro, aqui na minha cidade, em Niterói). Em dado momento senti um pouco de medo, o queixo danou a tremer. Mas nesse dia eu estava muito pilhado para subir, engoli o medo e fui. Acho que foi minha melhor escalada. O Paulo não deixou a corda mega tensionada, justamente para me dar uma certa liberdade, e eu não vacilei e nem escorreguei. Claro que o novato aqui deu umas roubadinhas, não me orgulho em dizer, mas foi uma subida segura e tranquila. Pude aproveitar o visual sentindo-me o ‘alpinista’. Saí da pedra dono de mim, seguro, fortalecido. Subir no Babilônia é uma espécie de batismo para o escalador fluminense, e eu havia sido iniciado.
Sábado seguinte foi a vez da Coringa. Mas calmo, cumpri meu ritual de ver vídeos sobre a via, investigar sua graduação, arrumar e verificar o material. Partimos a tarde, novamente eu e o Paulo.
O acesso a Coringa é através de uma trilha curta, de cerca de 10 minutos de caminhada. Eu estava bem mais calmo nesse dia, a confiança adquirida na Reinaldo ainda se fazia presente.
A saída da via é quase uma escalaminhada, o que aumenta a sensação de que tudo vai ser fácil. Bom, para um escalador experiente a Coringa realmente é um passeio mas para mim foi uma aventura radical. E aí vai a lição número um da rocha: seja confiante, não arrogante. Quem manda na pedra é a pedra, tenha confiança na sua abordagem da via, mas nunca arrogante para desmerecer os obstáculos que possam aparecer.
Dois lances fizeram-me duvidar da minha capacidade para superar adversidades na rocha. Pedi mesmo ao guia para descermos. Escorreguei muitas vezes, arranhei-me, senti medo. Não aquele medo que impulsiona, mas um medo ruim, que paralisa. Nesses momentos pude contar com o valioso auxílio do guia, Paulo Guerra. Hoje, digo com muita convicção do que afirmo, um bom guia não é apenas aquele que domina as técnicas de escalada, conhece todos os procedimentos de segurança, tem a via na palma da mão (claro, tudo isso é importante). O bom guia é, sobretudo, aquele que te faz superar seus limites, que esta disposto a partilhar seu saber, que literalmente, e metaforicamente, quer te ver para cima. O Paulo é desses. Sempre me estimulando, confiando em mim, mais do que eu mesmo, foi me mostrando alternativas, dando força (‘mente forte’ diz ele), chegando mesmo a desescalar um trecho para poder me ajudar.
Graças a esse estímulo, tirei forças lá de dentro, superei novamente meus temores, minhas dúvidas, e consegui passar os dois trechos, que para mim pareciam impossíveis.
E aí vai a lição número dois da rocha: escolha bem seus companheiros de jornada, pois é necessário confiar neles; são eles que vão garantir sua segurança, e vice-versa, são eles que vão te dar força para chegar ao topo quando você fraquejar.
Posso dizer que escolhi bem.
Bom escaladores, até a próxima experiência. Aguardo vocês aqui.
Paulo Guerra

Um comentário:

  1. Existe lições muito importantes em nossas vidas, eu entendo que a rocha nos faz observadores na leitura do caminho, e que as conquistas serão atingidas passada a passada,agara a agarra,queda a queda...
    Parceiro, "mente forte"

    ResponderExcluir